Página impresso 2 (18/09/2018) - Fonte: Correio Popular

Correio Popular - Impresso - Flip / Brasil
Publicado em: 18 Setembro 2018

Eleições e visão de Estado

O voto é um direito do cidadão. É o instrumento mais eficaz que o povo tem para reeleger representantes que cumprem bem a missão de servir à polis ou de mandálos para casa quando eles driblam suas funções. A lembrança se faz necessária nesse momento em que o eleitorado começa a escolher os quadros que ganharão seu voto. Ocorre que esta eleição se apresenta como uma das mais importantes de nossa historia. De um lado, trata-se da oportunidade de escolher a pessoa mais capaz de comandar o País, governantes dos Estados que o compõem e representantes na esfera parlamentar. De outro, tratase de eleger os núcleos ideológicos que definirão políticas de Estado. Portanto, no caso da eleição para a Presidência, o pleito leva em consideração uma visão de mundo, o modo como os protagonistas enxergam as tarefas do Estado, o mercado e a economia (cunho mais estatal e/ou mais privado), programas sociais, infraestrutura, potenciais e riquezas naturais etc. Numa tentativa de sumarizar tais visões, chega-se às três principais correntes políticas que governam os Estados modernos: o socialismo, a social-democracia e o capitalismo. De maneira genérica e sem aprofundamentos (por não ser o objeto desse texto), pode-se dizer que o primeiro tem seu eixo fincado na transformação social por meio da distribuição de riquezas e da propriedade, abarcando a luta de classes (a revolução do proletariado), a extinção da propriedade privada, a igualdade de todos etc. Na teoria marxista, o socialismo encarna a fase intermediária entre o fim do capitalismo e a implantação do comunismo. O capitalismo se ancora na propriedade privada e na acumulação do capital, tendo como leit motiv a busca do lucro. Portanto, constitui o contraponto do socialismo. Já a social-democracia abriga a intervenção do Estado na economia (distribuição de renda mais igualitária) e nos programas sociais, sob o escopo do Bem-Estar Social e, no território político, dá guarida à democracia representativa. Emerge como sistema que combina aspectos do socialismo (intervenção do Estado) e do capitalismo (propriedade privada). O fato é que a derrocada do socialismo clássico, a partir do desmantelamento da URSS e a queda do Muro de Berlim, em 1989, estendeu o território da social-democracia, sendo este o modelo de Nações democráticas, principalmente no continente europeu. Por nossas plagas, o socialismo tem sido badalado por partidos, a partir do PSB. Alguns, como o PT, chegam a exagerar na defesa do socialismo quando, na verdade, o que fazem é adotar a prática social-democrata ou seguir a trilha de um “ socialismo- moreno ”, aquele que Leonel Brizola e Darcy Ribeiro pregavam: o Estado com o controle de setores da economia (petróleo e energia), e a iniciativa privada com o comércio, a indústria e os serviços. O que vemos no ideário dos partidos, aliás, é uma identificação com a social-democracia, com ênfase a alguns aspectos, como o repúdio à privatização de empresas estatais (como prega o PT). Acirra ânimos, isso sim, o uso da máquina do Estado, como fez o PT em 13 anos de mando. Política de terra arrasada: “para o petismo, pão; para os adversários, pau; nós, os mocinhos; outros, os bandidos”. Haddad, a propósito, é um teórico que se declara marxista. Eleito, deixaria seu marxismo a ver navios. Mas o PT não abandonará o palavrório socialista. Já na outra banda do arco ideológico aparece Bolsonaro, candidato de um Partido Social-Liberal, arremedo de costela da social democracia. Ex-capitão do Exército, simboliza repressão, defende o armamentismo, é antídoto contra tudo que remeta ao comunismo. Nem mesmo é defensor rígido do capital, eis que em seu pensamento viceja uma seara nacionalista e um Estado com controle de áreas da economia, pensamento atenuado por seu guru, Paulo Guedes. No meio, Ciro, Alckmin e Marina, cada qual puxando o Estado mais pra lá ou mais pra cá. Resumo: seja qual for o vencedor, a real politik brasileira imporá barreiras intransponíveis para a instalação de uma ideologia radical. Disso não devemos ter receio.

Gaudêncio Torquato é jornalista,

consultor político e professor titular da USP

Qual o nosso patrimônio?

SUSTENTABILIDADE

FERNANDO

CAPARICA

Nossas prioridades são definidas de maneira responsiva, de acordo com a tragédia do dia. Assim como nos “Stories” do Instagram, elas logo saem de cena e da pauta do dia, sendo substituídas por algo mais recente — não necessariamente mais importante. O massacre do Carandiru, em 1992, gerou um clamor geral sobre a insustentabilidade de nosso sistema carcerário. Vinte e cinco anos depois, já havíamos até esquecido quando novos massacres pipocaram em nossos presídios no ano passado, com ainda mais mortos. A chacina da Candelária, em 1993, gerou um clamor geral sobre nossas crianças em situação de vulnerabilidade. Novamente, após vinte e cinco anos, estudo realizado pelas Organizações não Governamentais Observatório das Favelas e Open Society Foundations, mostrou que a participação de crianças no tráfico do RJ dobrou nos últimos cinco anos. Faço essa breve preleção, apenas para contextualizar e justificar o meu ceticismo com toda a celeuma suscitada pelo incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro com relação ao nosso patrimônio histórico e cultural. Passado o clamor inicial, outros temas tomarão o palco e a nossa história voltará a ser desinteressante para a maioria de nossa população. O cuidado por nosso patrimônio tem de se iniciar no berço, nas escolas de educação infantil, na conscientização de nossas crianças sobre a importância de nossa história, de nossa cultura, de todas as nossas crenças e valores. As crianças são o nosso amanhã, as sementes que germinarão e cujos frutos alimentarão nosso planeta. Assim como a diversidade de espécies é indispensável para a sobrevivência das plantas, a diversidade cultural é indispensável para a preservação de nossa herança.

Tragédias históricas como o Nazismo, o Estado Islâmico (ISIS), o Ku Klux Klan, as Cruzadas, o Nakba, dentre outras que já foram ou ainda estão acontecendo, decorrem da necessidade estúpida e inócua de um ser humano em impor suas crenças e valores ao seu próximo. Não adianta querermos preservar nossos prédios se não preservarmos nossa gente. Prédios são importantes, animais e plantas são importantes, mas quem pensa e age somos nós, seres humanos. Essa é a razão pela qual a Mostra Sustentável, além de preservar prédios históricos como o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, referência nacional em saúde mental, se coloca como uma ferramenta de transformação social em benefício de uma instituição de benemerência. É também a razão pelo qual, além de fazermos a compensação ambiental das emissões de gases de efeito estufa, também inserimos um projeto pedagógico com visitas escolares para alunos do ensino fundamental. E também por isso oferecemos visitas inclusivas para pessoas com deficiência e expandimos as SustenTalks para além da arquitetura e design. No final das contas, nosso patrimônio é o presente que cuidamos e o futuro que plantamos.

Fernando O. Caparica Santos é empresário

e empreendedor, engenheiro eletricista, diretor e curador da Mostra+Sustentável

O vigor e a competência

SÉRGIO A. M.CARBONELL ANTONIO BATISTA FILHO CELSO VEGRO RENATA H. B. ARNANDES

Você que nos lê, hoje tomou café com leite e comeu pão ou fruta. Se ainda não se alimentou, está vestindo roupa de algodão ou usou veículo abastecido com etanol. Como em todos os dias, você está em contato com algum produto elaborado com matérias-primas que vêm das lavouras. Pela presença constante e a relevância que tem, o agronegócio é o setor que alimenta a população e sustenta a economia nacional. O alicerce desse sólido segmento está nas instituições de pesquisa, onde são desenvolvidas tecnologias. Há mais de um século os institutos paulistas têm atuado ativamente em prol do agro paulista e brasileiro. Há dificuldades sim, como em todas as instituições brasileiras que amargam em uma crise sem precedentes. Porém, nada tem a ver com “inanição”, como o professor Ciro Rosolem, autor do artigo intitulado “Competitividade e pesquisa”, publicado neste jornal, em 12/09/2018, se refere ao Instituto Agronômico (IAC), Instituto Biológico (IB), Instituto de Economia Agrícola (IEA) e Instituto de Zootecnia (IZ). O termo “ativo” consta entre os antônimos para a palavra “inanição”. Como cientistas que somos, vamos retratar com números a real situação. Em 2018, IAC, IB, IZ e Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) foram contemplados com R$ 49,765 milhões da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) por meio de chamada exclusiva para os 20 institutos de pesquisa paulista. A Fapesp disponibilizou R$ 120 milhões para atender as propostas. Cerca de 40% desse recurso serão empregados no IAC, IB, IZ e ITAL, que enviaram um plano de desenvolvimento avaliado com todo o rigor da Fundação. No biênio, 2016/2017, o orçamento para os institutos mencionados acima, somados ao do Instituto de Pesca (IP) e ao dos Polos Regionais, todos coordenados pela Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), foi de R$ 596 milhões. O impacto econômico de parte das tecnologias desenvolvidas no período gerou nas cadeias de produção que as adotaram R$ 10,9 bilhões. Isso significa mais renda e emprego graças às tecnologias desses institutos que estão em pleno “vigor”, outro antônimo de “inanição”. Tudo isso, apesar das dificuldades e restrições sim, porque elas existem, mas não são impedimentos para manter a excelência científica e a credibilidade junto aos setores de produção. Em 2017, 23,4% do orçamento desses institutos vieram de recursos privados. Este índice é equiparável às universidades americanas e muito superior ao alcançado pelas brasileiras e pela Embrapa. Ninguém investe naquilo que está prestes a acabar. Os institutos da APTA reúnem 220 normas e procedimentos acreditados pelo INMETRO e credenciados pelo MAPA. São realizadas mais de 350 mil análises laboratoriais por ano, que aliadas à venda de insumos, como as mais de um milhão de doses de sêmen de touros melhorados geneticamente pelo IZ, as 450 toneladas de sementes básicas do IAC e as 60 mil borbulhas de citros, foram responsáveis pela arrecadação de R$ 27,502 milhões no biênio 2016/2017, valor 38% superior a 2014/2015. Soma-se a esses serviços, a produção de imunobiológicos pelo IB, usados no diagnóstico de brucelose e tuberculose, que deve bater recorde de produção neste ano, distribuindo para todo o setor 3,8 milhões de doses. O IB trabalha para triplicar sua produção, já que é a única instituição brasileira autorizada a produzi-los. Sem eles não é permitida compra, venda, trânsito e exportação de bovinos. Acrescenta-se a assessoria do IB na implantação e manutenção de biofábricas, empresas que produzem organismos usados no controle biológico de pragas e doenças. Ao todo, 14 biofábricas assinaram contrato com o Instituto em 2016/2017. Isso sem contar as informações estatísticas levantadas pelo IEA, que coleta preços médios nos 645 municípios do Estado, caso único no País. Com essa informação, a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo obtém anualmente mais de R$ 2 bilhões em Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação e o governo federal arrecada montante similar em Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR). Com relação à formação de recursos humanos, esses institutos também trazem grande contribuição com seus cursos de pós-graduação. No biênio 2016/2017, 108 mestres foram formados na Pós-Graduação do IAC, IB, ITAL, IP e IZ e outros 42 doutores se formaram no IAC e IB. Neste ano, são 218 alunos matriculados, oriundos de diversos estados e até mesmo do Exterior. Não se trata de negar a existência de necessidades de aporte material e humano. Todos nós reiteramos a expectativa de ampliar nossas equipes e modernizar cada vez mais as estruturas. Entretanto, referir-se a esses institutos como se estivessem “deixados a morrer de inanição”, quando os fatos comprovam o contrário, constitui falta de responsabilidade – por ofender a imagem dessas instituições que circulam nos setores do agro e se comprometem com os diversos elos das cadeias de produção. Carrega ainda um desrespeito com esses institutos responsáveis pelo suporte tecnológico que faz da agricultura paulista a mais eficiente do Brasil. Reconhecemos a história e atuação do professor Rolosem e por isso deixamos o convite para que visite as unidades para ver de perto que por aqui vibra a paixão pela ciência e são fartos os frutos de instituições que não perdem o vigor. Estendemos o convite a outros profissionais, que muitas vezes fazem críticas por meio da imprensa, mas que pouco conhecem de fato ou há muito não visitam e veem de perto nosso trabalho.

Sérgio Augusto Moraes Carbonell,

diretor-geral do IAC, Antonio Batista Filho, diretor-geral do IB, Celso Vegro, diretor-geral

do IEA, e Renata Helena Branco Arnandes,

diretora-geral do IZ

Opinião “Mesmo em ano eleitoral, investir no mercado

imobiliário é uma boa aposta”

Correio do Leitor leitor@rac.com.br

CORREIO POPULAR

Campinas, terça-feira, 18 de setembro de 2018

Coordenação: Marcelo Pereira marcelo p@ rac. com .br

Marcelo Coluccini, diretor regional do Secovi em Campinas, sobre o panorama positivo do setor